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Erguei as mãos
Depois de um dia mega cansativo, trabalho + faculdade, só me restava iniciar meu calvário até o ponto do Barra Shopping para pegar meu querido busão e retornar a Babilônia.
Chegando ao Shopping você tem que driblar os obstáculos até chegar no seu ponto, o meu é o último.
Passo por um senhor vendendo amendoins torrados, um cara vendendo doces, e me deparo com uma “mini-balada”, um isopor de cerveja, um churrasquinho, dois caras de abadá e três vendedoras da Claro portando um MP15 num funk muito neurótico, era o combo “duzinferno”!
Depois de alguns segundos querendo passar por ali e me perfumando com fragrância de acém da promoção de quinta feira do Guanabara, consegui furar o bloqueio e chegar na minha tão sonhada fila.
Na minha frente tinha um homem que fumava parecendo curtir o momento, eu juro que só não entendo por que a cada trago e olhava para o cigarro, parecendo dizer: “Você tá uma delícia, hein rapaz!”
E o pior, acho que ele esperava o cigarro responder.
Depois de 15 minutos em pé na fila, e esse banho de defumador que tomei desde lá o início, chega o buso, minhas varizes saltavam de alegria. Enfim, sentaria e descansaria esse corpo velho e cansado.
Contei quantas pessoas tinham na minha frente, eram exatamente 39 pessoas, sobrariam pelo menos uns 5 lugares, a fila foi andando, paguei a passagem e passei a roleta rumo ao paraíso.
Tinham dois lugares vagos, um lá atrás, onde chamo de “tobogan”, bem em cima da roda, e um logo no meio do carro, lado do corredor.
Esse tipo de lugar é um imã pra idoso, grávida e outros preferenciais...
Dito e feito, passa a roleta uma vovozinha, uns sessenta e poucos anos cabelos brancos, roupinha simples e uma bolsa de crochê atravessada ao corpo, veio se aproximando, e eu torcendo pra alguém ceder um lugar à ela. Um virava a cara, um atendia o celular, um fingia dormir, ê povo sem coração. O meu eu tinha deixado em casa, então tenho essa desculpa né?
Bom, a vovozinha estacionou logo na minha frente e me olhou com aquela carinha angelical...
Não resisti. Ok, vou tentar garantir meu lote lá perto de São Pedro, levantei...
“-Senta ae tia..” , resmunguei...
Ela responde já mergulhando no banco:
“-Não quero incomodar (já incomodando)meu filho...”.
Então ela puxa assunto sobre tudo, calor, ônibus cheio, política e etc...
Eu com meu fone de ouvidos, apenas confirmava balançando a cabeça.
Quando a vovozinha saca um livro de dentro da bolsa e começa a falar:
“- Meu filho, estou morta de cansaço, estou das 14hs às 22hs em pé naquela livraria...
Me senti bem naquele momento, pois tinha dado lugar a uma senhora que passou o dia trabalhando em pé numa livraria....
Meu puxadinho perto de Gandhi, Madre Tereza e Bozo tava garantido.
Ahh vai, o Bozo era maconheiro mas era gente boa, super do bem.
Foi então que meu castelo caiu...
Ingenuamente, perguntei:
“- Senhora trabalha em qual livraria?”
A velhinha boceja como quem vai cochilar na viagem, responde ainda bocejando(e tirando onda com a minha cara, fato):
“- Que trabalho o que, meu filho? Hoje o Padre Marcelo Rossi ia autografar o livro dele nessa livraria, e eu fui pra lá garantir o meu. Tô lá desde cedo esperando por ele, agora você me dá licença pra eu cochilar um pouquinho, estou esgotada...”
Pensei em cometer o pecado do xingamento e arremesso de idosa do ônibus.
Mas resolvi, ir pagando meus pecados calado e em pé mesmo até em casa.
Toca o bonde no silencio aí piloto!






