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Relato sobre o dia em que o Nuno DV foi baleado durante uma missão.
Nuno DV pra quem não conhece, é um renomado pichador carioca e faz parte da Crew DV(destruidores do Visual),
um grupo do Rio de Janeiro que reúne grafiteiros e pichadores. Em primeira mão, você irão conferir tudo que
aconteceu no dia em que o Nuno decidiu se aposentar da Pichação. Confira aí!
O LOCAL
Domingo, 22-11-09.
Deodoro, zona norte do Rio de Janeiro há uns duzentos metros da estação de trem do bairro, há uns 50 metros da Av Brasil
próximo à favela do Muquiço, área dominada por milicianos, grupo paramilitar que se denominam liga da justiça, mas poderia
se chamar liga da covardia. Estávamos vindo de duas missões bem sucedidas em Campo Grande, zona oeste do rj, como
sobrou uma tinta, e ainda era cedo, o Arpa lembrou de uma escolta dele na linha do trem em Deodoro, nos dirigimos pra
lá, no caminho ainda vimos uma das paradas que fizemos em Campo Grande. Chegamos no local, olhamos e pegamos a
escolta de ponta a ponta, e quando estávamossaindo, o Arpa cismou que nos espaços entre nossos nomes, alguém desceria
e se meteria em nossa seqüência, disse pra eleque ninguém ia descer ali e tal, mas ele estava certo de que iriam, então
combinamos de preencher os espaços (esse foi nosso erro).Pois quando estávamos olhando e combinando o que iríamos
fazer, apareceram dois caras em cima do muroda linha, não fizeram enem falaram nada, só olharam pra gente e foram
embora.Quando terminamos de preencher os espaços, e estávamos já de saída,fomos parados.
ABORDAGEM
Para, para, para, quando olho tem um cara há uns 3 metros de distancia apontando uma pistola prateada pra mim, falei pra ele ficar
calmo que eu ia descer. Fui descendo o pequeno barranco o Arpa veio em seguida, tomei uma coronhada e o cara me mandou deitar
no chão, fui tentar falar com o cara, e recebi um cala a boca junto com chute nas costas.
O SUFOCO
Tem uma música do Cazuza, que diz assim, ”talento pra loucura, procurávamos ter no peito” a canção segue e vem essa
parte aqui “eu vi a cara da morte e ela estava viva”. Nome da musica é BOAS NOVAS, mas senhora e senhores, confesso
que não vi a cara da morte não, nem poderia estava com minha cara virada pro chão, mas deu pra sentir o cheiro e sabor
da morte, o cheiro era de mato e terra seca, estava bem ruim de respirar naquela posição então ficava prendendo a respiração,
mas quando o fôlego acabava e precisava colocar ar nos pulmões, junto com o ar vinha o cheiro de terra e do mato.
Já o sabor, pra cada pessoa deve te um diferente, não sei e nem quero passar por isso de novo pra saber, espero que ninguém
passe, mas o sabor pra mim foi de saliva, no meio daquilo tudo minha boca ressecou a ponto de começar a engolir saliva.
Um dos caras que nos abordou, estava decidido a nos matar, parecia que ele nunca tinha matado ninguém, e queria saber a
sensação de tirar a vida de alguém, pra nosso azar estávamos ali, deitados no chão, dando essa oportunidade pra ele.
Na cabeça dele já tinha até o álibi, pra quando a policia achasse nossos corpos, ele disse pro outro miliciano, vamos matar
esses dois e colocar armas nas mãos deles, depois ligar pra 190 que vão achar que eles eram ladrões. Outra coisa que eles
queriam fazer era usa minha corda e deixar a gente amarrado na linha do trem até alguém achar.( não preciso nem dizer qual
que eu preferi ali na hora!) Mas pra eles a 1ª opção era a mais indicada.
De inicio o outro concordou com a ideia, e deu pra ouvir o engatilhar da pistola, não sei se estava em cima de mim ou do Arpa,
confesso que na hora aceitei que era meu fim e desisti de viver, fechei os olhos e esperei o disparo, dizem que quando se está
morrendo, um filme sobre sua vida passa pela cabeça, não passou filme nenhum em minha cabeça, apenas vi a imagem de
minhas filhas sorrindo, eu pedindo desculpas por ir assim e deixa-las na pior, imagine os amigos na escola no dia da reunião de
pais, dia dos pais, festas etc... Abraçando dando presentes a seus pais e elas olhando aquilo e tendo que contar que seu pai foi
assassinado pichando, ou iriam inventar alguma desculpa, por vergonha. Enfim foi isso que havia passado em minha cabeça antes
de morrer,agora só faltava passar a bala.
Foi quando um deles lá falou assim; antes de matar avisa ao Nem, não vi a reação do cara se foi de concordar no ato ou de
fazer contrariado, só sei que o contato com esse Nem foi feito, pois dava pra ouvir o bip do rádio sendo passado, o cara pediu
autorizaçãopra matar a gente, explicou rapidamente do jeito dele o que estava acontecendo, mas o tal do Nem sabendo que
éramos apenas pichadores, não deixou ele matar a gente não, mandou jogar a gente na linha do trem e liberar, isso depois da
gente já ter sido espancado, ter levado coronhadas, chutes, pisões, sermos pintados e roubados, mas o que mais marcou na
sessão dos esculachos foi os caras terem filmado ou fotografado toda ação com minha própria máquina fotográfica que
estava na mochila, e terem urinado em cima da gente.
O TIRO
Primeiro eles jogaram o Arpa na linha do trem, era uma altura de mais ou menos dois metros apenas, já havia pulado de locais
bem mais altos, mas nunca naquela condição de ser jogado, quando os caras chegaram comigo na beira da linha pra me jogar
deu pra vero Arpa lá correndo descalço naquelas pedras, por dentro eu estava rindo já, afinal pra quem ia morrer, estava saindo
vivo, sabe gato quando tentam jogar ele na água? Era eu, já bati no chão correndo em direção ao Arpa, lembro que ele já
estava longe, fui correndo e rindo, rindo de alivio e não por estar achando engraçada a situação.
Não sei a distancia exata que já estava dos caras da milícia, enquanto corria, mas ainda deu pra ouvir o som do rádio tocando, e
logo depois começaram a atirar, não entendi nada, só continuei a correr depois de quatro ou cinco tiros, senti que um pegou
em meu braço, nem olhei na hora, pois os tiros não paravam, bati no meu ombro e meu braço estava todo dormente do ombro
até a mão, não tinha como eu saber exatamente onde o tiro havia pego, sabia que não tinha sido na mão, pois dava pra olhar
pra ela enquanto corria, pensava comigo mesmo, perdi o braço por causa de pichação.
Curiosamente não senti dor, as pessoas falam mesmo que não tem dor quando se é baleado, mas foi um péssimo jeito que
arrumeide comprovar essa tese, continuamos correndo até que chegamos na estação de Deodoro, lá é que com mais calma
procurei ondetinha pego a bala, alimentava a esperança de ter sido de raspão, pois como não teve dor, tive essa esperança,
mas logo vi o buracono braço, e falei pro Arpa, acertou aqui, ele tirou a camisa dele enrolou em meu braço e logo a camisa de
branca ficou vermelha e molhada de sangue, fiquei surpreso comigo mesmo com a calma que estava lidando com a situação,
subimos na plataforma da estação, dois vigias perguntaram o que tinha acontecido, falamos por alto que havia ocorrido, frisamos
só que estava baleado e precisava ir para um hospital. Perguntei se algum deles tinha um celular pra fazer a ligação, mas eles
disseram que não tinham celulares, e nos levaram até o orelhão que tem na entrada da estação.
DISQUE 190
Sentei no chão fora da estação ali no viaduto de Deodoro, um calor de matar, morrendo de sede, o chão estava fresco, dava
uma sensação de bem estar, o Arpa ficou dentro da estação no orelhão, falei pra ele não ligar pros bombeiros, queria que
ligasse pra policia, não era nem questão de preferência. Era que não queria que virasse noticia ali na hora, pois quando chega
alguém baleado em qualquer hospital, é de praxe que se avise a policia que deu entrada um baleado, eles chamam de PAF,
(projétil de Arma de Fogo) e eles, a policia, já vão até o hospital imaginando um bandido um assaltante sei lá, já vão achando
que se trata de algo maior, fora que não sei como, aparece repórter de algum jornal ou tv junto, e sabe como é repórter,
vão no mesmo pensamento inicial da policia, a policia quando vê que não é o que eles imaginavam, colhem o depoimento
e vão embora, já o repórter não perde a viagem, faz a matéria. Falei isso pro Arpa ele concordou e fez contato com 190
como queria, registrou a ocorrência e ficamos esperando sentados em frente à estação, deu uns trinta minutos e nada
de viatura, achei que a viatura não fosse aparecer, estava também com um sentimento ruim que a qualquer momento um
carro ia passar por ali largando o aço em cima de nós dois, Arpa concordou com esse meu sentimento, então descemos o
viaduto em direção a Vila Militar, parei no primeiro portão toquei a campainha, mas ninguém atendeu atravessei a rua e vi um
soldado, fui até ele e perguntei onde era a guarda, ele de dentro da grade apontou e fomos em direção a guarda, chegando
lá perguntei ao sentinela pelo sargento de dia, (como fui militar conheço um pouco a rotina) logo apareceu o sargento,
explicamos a situação e pedimos pra ele fazer contato com a viatura pra gente, ele prontamente fez, e logo vieram duas
viaturas. As que o Arpa e o que o militar ligaram, chegaram juntas, rasgando o silêncio da noite com as sirenes, tínhamos
combinado de contar a verdade aos pms, pichadores, rodamos para milícia, tudo o que houve, para caso os pms separassem
a gente, a gente não cair em contradição, eles ouviram acreditaram e uma das viaturas nos levou até o hospital Carlos Chagas
em Marechal Hermes.
Queria deixar registrado a toda guarda do Centro de Comunicações pqdt, que estava de serviço na naquela noite 22/11/2009,
e nos atendeu sem pensar duas vezes. Obrigado mesmo.
NO HOPITAL
Hospital Municipal Carlos Chagas
Na chegada olhares curiosos, chegamos numa viatura, mas logo viram que os policiais estavam tratando a gente bem com
preocupação e viram que não éramos foras da lei, ao menos não éramos perigosos. O próprio pm deu entrada pra mim, depois
me levou numa cadeira de rodas lá pra enfermaria.Lavaram meu braço, aí que deu pra ver os furos (foto), dei graças a Deus
que eram dois furos, ficar com uma bala alojada era na hora meu maior medo.
Engraçado era o enfermeiro discutindo com o pm qual era o calibre da arma, um tentando defender sua tese, um pela
experiência naluta contra o crime, outro na experiência em socorrer baleados. Depois tirei um raio x, pra ver se tinha afetado
algum osso, mas deu negativo, todos os ossos estavam intactos, enquanto era atendido pelo enfermeiro ia dando o
depoimento pro Pm., que depois de conferir meu cpf viu que não tinha nada constando em minha ficha, fez o que ele tinha
que fazer pegou assinatura do enfermeiro me desejou sorte e foi embora.
A VOLTA PRA CASA
Estava em Marechal Hermes, descalço, sujo, pintado de preto, sem camisa, com um braço enfaixado e com um raio x na mão,
mas semnenhum dinheiro. Fique no ponto final do 378, que é de frente pro hospital, mas a cabine do fiscal estava fechada, eu
ia pedir uma carona, mas pedindo informação descobri que, ele só roda no domingo até 00:00. Fui em direção a Pç de Marechal,
onde tem a reunião de xarpi nas segundas feiras, sabia que ali passava um ônibus para a pç Tiradentes.
No meio do caminho vi um ponto de Kombi que faz o trajeto Marechal Hermes Olaria, pedi uma carona pro fiscal, dei um papo,
quefui assaltado, que estava saindo do hospital, mostrei a papelada e o cara, fortaleceu a carona.
Chegando em Olaria agradeci ao motorista e desci, fui em direção e estação pra pegar uma outra condução na base da carona.
Fui fazendo a pé, o caminho do 910, de Olaria em direção ao Parque União, sabia que lá no PU seria fácil arrumar condução,
mas se no caminho passasse um 910 pediria carona, que passou quando estava um Ramos, fiz sinal, mas o motorista negou a
carona, continuei andando, cheguei no Caracol, atravessei e na primeira van que estava no ponto fale com o motorista ele
nem pensou duas vezes e me levou,
A DESCOBERTA DO BRAÇO ESQUERDO
Tenho meu braço e mão esquerda desde que nasci, ma só agora que vi que, realmente eles estavam aqui esse tempo todo.
Sou destro, e a previsão da recuperação eram mais ou menos essa aqui: 10 dias pra passar o inchaço, depois mais uma
semana pra recuperar o movimento dos dedos e mais uns 7 dias pra voltar o movimento do pulso, fora 30 ou 60 dias de
fisioterapia. Foi ai que fui apresentado de fato ao meu braço esquerdo, assim que cheguei em casa fui tomar um banho, não
estava me entendendo com a coordenação motora, sabonete não parava na minha mão, depois de muito tempo consegui
tomar mal e porcamente um banho. Fui tentar dormir, mas consegui, o filme vinha passando o tempo todo em minha cabeça.
No outro dia de manhã, quando fui escovar os dentes, parecia que estava tentando suicídio, era cada porradão que dava com a
escova na boca.Tudo era foda de fazer, pentear cabelo, comer, alias comer era uma comédia, o normal é levar a comida até
a boca, mas sempre que tentava fazer isso à comida caía, então comecei a por a comida no garfo e ia com a boca até ela,
parecia um débil mental, fiquei dez dias sem fazer a barba, com medo de me cortar, na primeira vez que fui me limpar com o
papel higiênico, me sujei mais do que me limpei, então passei a sempre tomar banho em vez e usar o papel.E digitar no teclado,
fiquei mentalizando e decorando esse texto até conseguir teclar com a mão direita, mas à vontade de escrever isso foi tanta,
que estou fazendo só com a esquerda mesmo. Mexer no mouse sem ser destro é foda. Mas com o tempo fui me acostumando.
Mas a pior coisa mesmo é, achar uma posição pra dormir, e depois que dorme, acordar com a dor depois de se mexer e incomodar
o braço ferido.
DEPOIS DESSE SUSTO, VAI CONTINUAR PICHANDO?
Eu estava em uma fase na pichação, em que tudo estava dando certo, todas as minhas saídas estavam sendo tranqüilas, até
quando rodava, acabava me dando bem no final, acho que por isso estava numa redoma de auto confiança e a pichação
acabou perdendo a graça, afinal eu picho por adrenalina, esse é meu vício. E só estava tendo adrenalina em missões quase
impossíveis tipo; Escaladas verticais de 10 andares, a primeira depois de minha volta foi com o ISAK na Barra, ali a adrenalina
foi no grau máximo, depois fizemos outra em Jacarepaguá, mas já sem a mesma adrenalina, uma outra com o RITO em
Copacabana, e uma sozinho no Centro,
que serviu só pra suar a camisa, porque emoção não teve nenhuma, então vi que 10 andares era coisa do passado, precisava
de algo mais difícil, foi aí que veio os 20 andares também no Centro, ali sim teve adrenalina. Os cabos de aço, depois vi que
mais me machucavam as mãos, e não valiam esforço. Os ferrugens por mais dificuldade e adrenalina que deram no começo,
uma hora perderam a graça também, já estava pegando ferrugens só por serem eternos mesmo, foram vinte com o FYT,
cinco sozinhos e um com o ISAK, e pichar ferrugens, serviu também, pra eu perder a vontade de pichar em locais comuns
porque depois que você pega um ferrugem, tudo que não for ferrugem não trás adrenalina. Foi aí que viciei na corda,
qualquer coisa de corda, me atraia, estava só pegando coisas de corda, no dia do tiro, antes pegamos duas coisas de corda
e até a do tiro também havia sido de corda. Mas confesso que também estava perdendo a graça. E mesmo se não tivesse
acontecido isso, já estava em meus planos parar de xarpi no fim de 2009. Em meus textos no fotolog, já estava deixando
nas entrelinhas, uns recados de minha parada, o tiro serviu mesmo pra eu adiantar essa decisão, a diferença é que se eu
parasse por conta própria, as chances de eu voltar seriam grandes, mas do jeito que foi, e com a promessa que fiz, jurei
pela minha filha, vou ter que cumprir, se tivesse jurado por qualquer outra coisa, até por Deus, era bem capaz de descumprir
a promessa, mas pela minha filha, digo que parei!
Vou continuar indo pra reuniões, churrascos, eventos, afinal fiz amigos nesses lugares, com minhas coisas na Internet como:
Blog, fotolog, comunidade, na verdade parei de pichar com a mão, mas com a cabeça é impossível de se parar, vou sempre
olhar pros muros, pras marquises e vê o que está acontecendo na pista, e lembrar com saudades, os tempos que o
NUNO DV estava na ativa.
Finalizar esse relato, dizendo pra rapaziada tomar cuidado na pista, pensarem se vale à pena essa vida de pichador,
e dizer que;
Se for pichar, não tome tiro.
Se tomar tiro, sobreviva.
Contatos:
http://www.fotolog.net/nunodv
http://ww.fotolog.net/dvastasom
http://ww.nunodv.blogspot.com
http://www.formspring.me/nunodv
Texto: Leandro (N) Lopes
Fotos: André X7








parecido com o seu , so que o meu quebrei a cabeça e tomei 12 pontos
tb rodei em campo grande , pq moro aque , rs !
dps do fato juri pra min que nunca mas ia xarpi na vida , mas sabe como é né ..
hj to de volta na pista , fasso de tudo pra parar mas não consigo , acho meio que
empossvel acreditar que voce paro reslmente , me fala como fez isso por favor ! ;s
abraço a todos
pow queria uns concelhos seus manow , pow vejos seus nomes e de outros amigos e fico penssando , se eu fosse 1 pixador eu seria tao conhecido quanto eles , vejo as historia de vcs e fico intereçado cada vez mais , mais tmb tenhu 1 pouco de medo , nem por mim , pela minha familia tenhu medo que eles saibao que eu quero entrar pra essa vida , eu acho muito show cara
e queria umas dicas :D
Vlw nuno Obrigado ai manow por mostrar 1 pouco da sua historia
Grande amigo vc !
da para vc fazer um filme cara.... muito grande sua historia de xarpi