Arquivo
Rapper Dexter ganha a liberdade plena
Depois de 13 anos exilado dentro do sistema carcerário, finalmente Marcos Omena, 37, o rapper Dexter, ex-integrante do grupo 509-E, ganha a liberdade plena. Dexter recebeu a noticia às 14h, do dia 20 de abril de 2011, quando se preparava para viajar para a Bahia a trabalho. Na chegada ao aeroporto de Salvador logo a noticia, “Pó irmão to feliz ao extremo, acabei de ganhar a minha liberdade plena”, revelou Dexter.
A comemoração de sua liberdade começa no mesmo dia a noite com uma visita ao Sarau Bem Black, no Pelourinho, a convite do rapper GOG e por intermediação de Hamilton Borges e Dj Branco. Andando nas ruas do Pelourinho a caminho do evento já ouvíamos uma voz falando bem alto “Dexter está em Casa”, falava Nelson Maka, organizador do Sarau, ao chegar no local foi total emoção, o rapper GOG foi até a entrada receber Dexter e o público do Sarau foi ao delírio, muitas fotos e abraços.
Durante o evento Dexter fez o seu primeiro pronunciamento depois de liberto. “Satisfação enorme estar aqui com vocês, meus irmãos de sofrimento, de luta, de revolução, muito obrigado pelo carinho, pelo respeito, meu parceiro GOG, e hoje é um dia mais do que especial, acabamos de desembarcar a umas duas horas atrás, mais às 14h, desse dia 20 de abril, agora a gente pode passar a comemorar todos os anos no dia 20 de abril, a libertação deste que vos fala, muito obrigado pelo carinho, pelo respeito. Certamente as lagrimas derramadas ao longo desses 13 anos, hoje eu entendo que serviu para regar a árvore da minha felicidade, poder dividir isso com meu povo é muito louco, com meus irmãos, com minha família da rua, é muito louco, e eu acho engraçado, e ao mesmo tempo eu agradeço a Deus, essa data caiu justamente no dia que eu venho pela primeira vez a Salvador. De 13 anos, 10 foi ao lado de uma guerreira que dispensa apresentação, dispensa palavras, mas eu só queria dizer que mesmo com os pés sangrando, continuou do meu lado firme e forte, estendendo a mão a todo instante, a todo momento, passou fome por minha causa, quase foi despejada por minha causa, e hoje o que faço pra ela é pouco pelo que ela fez, guerreou comigo dez anos, e hoje você ta aqui amor, é porque você é merecedora e eu queria dizer que eu te amo, Patrícia Omena”, declamou Dexter. Em seguida cantou a música “Oitavo Anjo” o público vibrou.
Durante o evento GOG falou da importância do rapper Dexter para o hip-hop e o estado brasileiro. “Essa noite é muito especial, quantas vezes diante das dificuldades das necessidades, a gente sabendo que você é um parceiro que já era digno da liberdade, de estar caminhando, quantas vezes à política pública esteve distante e não tinha a mínima sensibilidade de entender que você era mais importante fora do quer lá dentro, por várias questões, passando pela econômica, mas principalmente pela espiritual transformadora, então hoje se o sistema, ele conta um a menos lá dentro, o louco é que a periferia ganha muito mais aqui, tá ligado? A guerra preta, a estratégia quilombola hoje vai ser praticada com mais sabedoria, por quer Marcos Omena, o que a periferia fez de Dexter está aqui hoje, então temos que festejar e comemorar, isso ninguém tira de nós, jamais”, desabafou GOG.
Em seguida o militante do movimento negro e da luta-antiprisional, Hamilton Borges, fez seu pronunciamento e declarou o dia 20 de abril feriado. “É muito importante isso aqui, hoje é dia de celebração, eu faço uma guerra aqui, junto com um monte de guerreiros que tem aqui, contra as prisões, nós somos anti-prisionais, e pra nós, há muita tempo atrás, eu dizia uma coisa, que a gente tinha você Dexter, sempre como nosso ídolo, como Nelson Mandela, como Malcom X, como Zumbi pra gente, continua, só que é um ídolo vivo, vivo, sã e forte para nós ajudar na luta, e pra mim o dia 20 de abril é feriado, no decorrer da minha vida, no dia 20 eu não trabalho mais, só estudo, eu queria dizer que nesse momento de celebração de amor, a gente tem que fazer uma luta contra o extermínio na cidade de Salvador, no estado da Bahia, a gente tem que fazer uma luta contra as grades, a gente não pode permitir que o governo continue abrindo cadeias, a gente não pode permitir que os lucros dos ricos sejam o nosso sangue derramado, esse que é o símbolo, valeu Dexter pela sua presença, tamo junto”, declarou Hamilton Borges.
Na sexta-feira, 22 de abril, a convite da Posse de Conscientização e Expressão – PCE – Dexter passou o dia visitando três bairros periféricos da cidade de
Lauro de Freitas, vizinha a Salvador. Ele foi aos bairros de Itinga, Portão e Lagoa dos Patos, caminhou pelas ruas, fez freestyle na chuva e conversou com a galera do hip-hop da região. No sábado a tarde participou, no Teatro Vila Velha, do evento Hip-Hop em Movimento, no Vivadança Festival Internacional, como palestrante da mesa redonda Hip-Hop e Direitos Humanos – Mudando as regras do jogo, ao lado de Hamilton Borges, Dj Branco e o Secretário de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Estado da Bahia, Almiro Sena. Dexter aproveitou a oportunidade para falar sobre sua carreira, experiência e visão sobre o sistema carcerário. Em seguida cantou na transmissão ao vivo do programa Evolução Hip-Hop, da rádio Educadora FM.
No domingo de Páscoa Dexter passou a manhã no Complexo Penitenciário Lemos de Brito, junto com Hamilton Borges e Drª Andréia, onde deu palestra, cantou e trocou ideia com os detentos, ele visitou três pavilhões. Para finalizar sua agenda na cidade, prestigiou a final da 4ª Batalha de Break – Evolução Hip-Hop e entregou o troféu e medalha para o campeão da batalha.
No ano de 2008 Dexter começou a cumprir regime semi-aberto, o que lhe possibilitou trabalhar fora do presídio, viajar pelo Brasil fazendo shows, palestras e participando de eventos de cunho sócio político cultural. Começou sua carreira como rapper em 1991 no grupo Tribunal Popular, que tem como padrinho Racionais MC’s, mas sua carreira só teve um “bum” em nível nacional com o surgimento do grupo 509-E no ano de 1999, no Presídio Carandiru, Pavilhão 7,”xadrez” nº 509-E, grupo o qual ele cantava ao lado do rapper Afro X. Logo lançaram o CD Provérbios 13, com faixas assinadas por Mano Brown, Edi Rock, DJ Hum, MV Bill, e arranjos de Zé Gonzalez (Planet Hemp), Marquinhos e DJ Luciano. Com uma pena menor, Afro-X foi libertado da cadeia em 2002, meses antes do lançamento do segundo CD “Depois de Cristo”. A dupla foi desfeita logo depois, mas o mito se manteve, o Oitavo Anjo, que no ano de 2005 lançou seu primeiro disco solo: Exilado Sim, Preso Não, contou com participações especiais de Mano Brown, Mv Bill, GOG, Função, Tina, Rinea Bv, Edi Rock, entre outros.
Disco que trouxe a toma o motivo real do desfecho do grupo 509-E com a música “Fênix”. “O 509-E acabou por divergências dentro do grupo, a decisão de acabar o 509-E foi minha, acho que a Fênix resume muito bem o por quer que acabou o 509-E, eu nunca usei o rap para cantar mentira, sempre fui um cara verdadeiro dentro do rap e até fora dele também, sou ser humano, tenho falhas, não sou perfeito, mais alguns erros eu não costumo cometer, ta ligado? E o 509-E acabou justamente por isso, erros cometidos e o não reconhecimento desses erros, a Fênix retrata muito bem o que aconteceu no 509-E”, explicou Dexter.
Confira abaixo a entrevista exclusiva feita com o Dexter:
Dexter, na frente da Estatua de Zumbi na Praça da Sé em Salvador
PORTAL RAP NACIONAL: Dexter conta como foi ficar 13 anos exilado?
Dexter: Na verdade, mas do que qualquer outra coisa foi um processo de aprendizado, foram anos de sofrimento, meu e de minha família mais que teve um peso relevante em meu aprendizado como rapper e principalmente como ser humano. Claro que muitas coisas foram difíceis mas acredito que todo guerreiro antes de vencer a guerra vai perder algumas batalhas, e no dia 20 agora nós conseguimos vencer essa guerra. Algumas lutas continuam e agora estamos com liberdade total para poder lutar. Antes se tinha uma mão atada um pé atado, agora como diz na gíria em São Paulo ta suave, e nós vamos vai lutar, mais como ser humano eu aprendi muito dentro da prisão com outros parceiros, eu vi o sofrimento de muita gente lá dentro, inclusive de pessoas próximas, da mesma quebrada, da mesma cor que eu, eu vi muita coisa acontecer, mais graças a deus toda a moeda tem dois lados, e eu preferir ficar com o lado melhor, eu fiz do pior o melhor, tem uma música nova que vem no meu próximo disco que eu falo isso. “Aprendi a não ignorar o pior, mais conseguir do difícil aprendizado o melhor, a minha missão no mundão recomeçou, to no verde a solta, obrigado senhor”.
RN: Durante a sua caminhada no hip-hop pelo Brasil, nos shows, palestras, o que você tira de positivo hoje que você ta na rua?
Dexter: Pude trazer essa experiência de sofrimento para a rapaziada e continuar com meu projeto, o “Como vai seu mundo “, levando agora a perspectiva de possibilidades pra eles lá dentro, se eu passei 13 anos e com a garra conquistei a liberdade, eles também podem, e isso não só, mas meus parceiros que continuam lá no projeto, em todos os lugares, em todas as cadeias do Brasil, todos eles tem uma possibilidade, agora comigo na rua é possível dizer pra eles que existe sim uma possibilidade de ganhar a liberdade, trabalhando em prol disso, então acho que todos companheiros lá dentro tem que trabalhar em prol disso, da liberdade deles, isso é o mais importante, fica ai a experiência de poder ter lutado , acreditado, conquistado e agora mais do que nunca estar liberto, então isso pra mim é gratificante ao estremo.
RN: Muita gente diz que a cadeia é a escola do crime, qual a sua opinião sobre isso?
Dexter: Pode ser, dependendo da ótica que se olha pode ser, o cara que entra lá por quer cometeu um crime banal, ele pode sair de lá doutorado, em crimes maiores, pode ser sim, mais também é um lugar de muita tristeza, às vezes as pessoas podem sair de lá frustradas ao extremo sem ter aprendido nada, de ruim ou de bom, essa máxima de que a cadeia é uma escola do crime ela pode ser verdadeira sim, depende de quem olha e de quem ta lá, acho que depende de cada pessoa, o que você quer para você, quando eu cheguei em 28 de janeiro de 98 não demorou muito tempo para eu entender que o crime não era pra mim, o crime de uma forma ilícita não era pra mim, embora eu ainda continue sendo um criminoso, mas um criminoso da comunicação, da informação, porque educar o meu povo, educar o meu país é dar um golpe de estado, e dar um golpe de estado em meu pais, é ser um criminoso, o rap mim torna um criminoso, mas um criminoso licito, com a liberdade de expressão com a possibilidade de poder falar para as pessoas o que é o que não é, não na intenção de ser o dono da verdade, mas a intenção de alertar pra o que pode vim ou não, o que tem que se fazer ou não também, é muito louco isso, o rap salvou a minha vida e certamente salvou a vida de milhões de jovens no Brasil afora. To aqui em Salvador, to vendo a paixão, o amor que a rapaziada do hip- hop tem pelo próprio hip hop, mano, é muito louco isso, eu to voltando nos anos 90, anos auges do rap em São Paulo, e to me sentindo aqui em Salvador um Malcom X, um Martin Luterking, um Mano Brown, um GOG, um Mv Bill, muito louco, muito louco isso.
RN: Qual a análise de conjuntura que você faz sobre o sistema carcerário?
Dexter: Muito simples mano, não recupera ninguém, temos que trabalhar em prol de nós mesmos, individualmente falando, ou coletivamente falando, nós temos duas formas de trabalhar, agora eu acho que depende muito da onde você estar, e se as pessoas ao seu redor também querem trabalhar desta forma coletivamente, se não quiserem meu amigo, a cota é você trabalhar por se só, individualmente falando, e fazer do pior o melhor, o sistema carcerário não recupera ninguém, não existe um política de ressocialização, infelizmente, e é assim que funciona, não dar para tapar o sol com a peneira.
RN: Em uma pergunta que eu fiz anteriormente você falou que o rap salvou sua vida. Você acredita que o rap salva vidas?
Dexter: Ô, com certeza sou categórico em afirmar, eu antes de conhecer o rap eu não sabia direito o que iria fazer de minha vida, como planejar meu futuro, o rap mim trouxe essa possibilidade, de programar as coisas de pensar melhor, é claro que eu falei também que antes de toda a vitoria certamente ira acontecer às derrotas, ter ido preso oito anos depois de ter conhecido o rap foi uma derrota NE? Mas eu também fui preso, coloquei o revolve na cinta e fui buscar um dinheiro por que eu queria gravar meu CD, o rap é tão religião para mim mano, o rap é tão influenciável, que porra, eu queria colocar o meu disco na rua de qualquer forma, eu queria que as pessoas conhecesse os meus pensamentos enquanto homem revolucionário e ai o que eu fiz, eu fui pra luta armada meu, eu precisava de dinheiro, infelizmente o mal de meu povo é o dinheiro, e a gente não tem dinheiro para fazer aquilo que a gente quer, e muitas vezes a gente acaba abdicando daquilo que a gente tem de melhor para fazer o pior, então eu peguei uma arma sim e fui atrais de um dinheiro, eu tava com o Brown produzindo meu primeiro CD, eu ainda era Tribunal Popular, eu estava com o Edy Rock, alem de ta produzindo uma musica, participando também, eu não queria perder essa chance de ter dois ícones do rap nacional no meu CD, então por algumas coisas internas que aconteceram em relação à gravadora que tava lançando nosso CD e não pode mas bancar, eu resolvi assumir essa divida no Atelier Studios, e fui atrás do dinheiro, só que eu tinha abandonado a minha profissão de cabeleireiro, a qual eu tenho muito orgulho, sou especializado em corte black, eu tinha abandonado alguns meses antes desse episodio, ai foi necessário que eu buscasse um dinheiro para poder pagar as horas de Studio e tal, e foi onde que infelizmente eu acabei sendo preso.
RN: Qual foi o seu artigo?
Dexter: 157 assalto a mão armada, embora eu tendo sido envolvido no 1.121 também, eu to falando aqui você perguntou e tal, mas isso não é gloria pra ninguém, preferia dizer que não fui artigo nenhum, mais já que fui, já que sou um ex- detento, uma ex-exilado, um crime foi cometido, esses crimes, 157 e 1.121.
RN: O que representa o 509-E em sua vida?
Dexter: O 509-E, foi um prêmio, um troféu que chegou as minhas mãos, ai eu tive que fazer jus a esse prêmio que eu recebi, então a gente trabalhou em prol, falando de mim, da minha parte eu deu um polimento, todas as pessoas envolvidas no 509-E tiveram a sua parcela de responsabilidade dentro do grupo, eu tive a minha, e a minha foi dar um polimento, foi trabalhar em prol de um nome grandioso que nasceu no ano de 2000, o 509-E ganhou prêmios, levou a minha voz, a minha música a lugares maravilhosos, e hoje não só com o 509-E, mais com o Exilado sim, Preso Não, ai já em carreira solo, eu to podendo ver, eu estou podendo colher os bons frutos que foram plantados através das minhas músicas, tanto dentro do 509-E como em carreira solo agora , mas para definir o 509-E foi isso, foi um prêmio, um troféu que eu ganhei na minha carreira.
RN: Por quer o 509-E acabou?
Dexter: O 509-E acabou por divergências dentro do grupo, a decisão de acabar o 509-E foi minha, acho que a música Fênix resume muito bem o por quer que acabou o 509-E, eu nunca usei o rap para cantar mentira, sempre fui um cara verdadeiro dentro do rap e até fora dele também, sou ser humano, não sou perfeito, mais alguns erros eu não consumo cometer ta ligado? O 509-E acabou justamente por isso, erros cometidos e o não reconhecimento desses erros, a Fênix, ela retrata muito bem o que aconteceu no 509-E, já hera, to ai firmão, fortão, seguindo minha carreira solo, to bem, graças a meu bom deus. O 509-E foi pra me como se fosse uma igreja, ai quando você não concorda com aquela doutrina daquela igreja, que você pode ter ficado anos, ou dias, semanas, meses, você sai fora e procura uma outra igreja com uma outra doutrina, e ai você descobre que o seu deus é o mesmo. Mesmo dentro de outra igreja, mas o seu deus é o mesmo, então essa é a metáfora que eu faço em relação ao 509-E. O 509-E pra mim era uma igreja onde a doutrina da igreja começou a me incomodar, e ai eu sair fora, e hoje eu to em outra igreja, carreira solo no caso, e to bem mano, hoje eu faço do meu jeito da minha forma, da forma que eu acredito, e é muito mais produtivo, muito bom hoje poder ta trabalhando, firme e forte na minha carreira solo.
RN: Quem é o Dexter hoje?
Dexter: O Dexter, alem de um homem liberto, é um cara que embora seja liberto, jamais se sentirá como tal, por quer enquanto vários irmãos estiverem encarcerados, estiverem no exílio, eu também vou me sentir como tal, porque eu também faço parte dele, faço parte desta atmosfera, mas Dexter hoje é um cara feliz, um cara mas maduro, é claro que todo dia se tem um aprendizado, todo dia eu aprendo mas um pouco, mas eu sou um cara feliz, sou amado pela minha família, amo minha família também, amo minha família de casa, e a minha família da rua, e sou um cara que posso ta falando para pessoas de algumas experiências que passei nesses 37 anos, 13 deles vivido dentro do cárcere, não sou um Martin, não sou um Malcom X, mas tenho uma historia, o rap mim possibilitou isso, e mas do que tudo isso eu sou um ser humano que aprendeu com os erros, que vai continuar errando, claro, lógico que não mas com uma arma na mão, mas no dia a dia, no cotidiano comum, vai continuar errando, mas que é um cara feliz mano, e que quer falar pras pessoas de uma possibilidade de mudança, quer mostrar para as pessoas que essa possibilidade é real, esse é meu papel, eu tenho amor, felicidade de poder ta cumprindo ele, de saber que deus me dar saúde todos os dias, de levar para as pessoas esperança através de minha música, alegria diversão, entretenimento, mas também, consciência, aprendizado, enfim , esse é o Dexter hoje.
RN: Em seus depoimentos nos lugares que você andou aqui na Bahia você citava muito a importância de sua esposa Patrícia Omena em sua vida, fala um pouco pra gente.
Dexter: Há, minha mulher é uma pessoa maravilhosa, me acompanhou 10 anos dentro do cárcere, sempre esteve lado a lado comigo, mesmo com os pés sangrando, o coração também, sempre foi uma pessoa excepcional, de muita importância em minha vida, minha base.
RN: Você conheceu a Patrícia no presídio?
Dexter: Na verdade a nossa historia ela começa no ultimo show que o 509-E pode fazer na rua, exatamente no dia 25 de janeiro de 2001, aniversario de São Paulo, um show lá na Pedreira na Zona Sul, onde eu conheci a Patrícia, nesse ultimo show, nossa ligação começou ai, e oito messes depois após esse show a gente começou namorar, em setembro agora, exatamente no dia 16 de setembro vai fazer 10 anos que estamos juntos, ela é uma pessoa maravilhosa que me ensinou muito, claro que é um ser humano também não somos perfeitos, somos passíveis de falhas, somos seres humanos como casal, ela como mulher eu como homem, mas a gente ta aprendendo juntos, isso que é muito louco, a gente procura melhorar enquanto pessoas juntos, é uma pessoa que eu amo de verdade, uma pessoa que me ajuda a cuidar da minha imagem enquanto rapper, da minha carreira, uma pessoa que me ama de verdade, não por quer eu sou o Dexter, mas porque eu sou o Marcos Fernandes de Omena, eu também a amo muito, temos as nossas divergências enquanto pessoa, mas nos amamos e o amor supera tudo, e isso que é o mas importante, ela é uma pessoa fundamental em minha vida.
RN: Quem foram às pessoas que te deram força nos momentos que você mais precisava, que te apoiou no sistema carcerário?
Dexter: Foram varias as pessoas, se eu for citar nomes aqui eu vou cometer injustiça, porque foram vários amigos, não tantos assim, mas para um cara que ta exilado e ter os amigos que eu tenho, eu considero vários, queria agradecer todos eles aproveitando ai o ensejo, quero agradecer todos eles por ter estendido a mão no momento que eu mais precisei, eles sabem quem são mano, eu não preciso citar nomes, tenho até medo de cometer injustiça, mas meu, diversas pessoas de diversas parte do Brasil. e eu tenho um carinho enorme por todos eles, todos eles estão em meu coração, eu queria agradecer os ensinamentos, os momentos de tristeza que eu passei e eles estavam comigo, não me abandonaram, isso é o mas importante, não me abandonaram, estiveram junto comigo lado a lado, foram vários, prefiro não citar nomes , mas eles sabem quem são.
Hamilto, Dexter e Dj Branco na mesa de debate do Hip-Hop em Movimento, em Salvador-BA
RN: O que é o Brasil pra você?
Dexter: O Brasil é um país com muitas contradições, mas mesmo assim é um pais maravilhoso de viver, é um país onde possibilita algumas pessoas viverem bem outras nem tanto, percebo que isso também é culpa de nossos governantes que detém o poder e não fazem nada, traem os filhos da nação quando são eleitos e passam a ocupar os cargos públicos e não fazem jus aos votos que receberam , e trai o povo, mas assim, somos um povo guerreiro que vamos a lutar, que buscamos as nossas conquistas, em meio a todo esse caos ai, relativamente falando, a gente tem sobrevivido ao longo dos anos, vitorias aqui, derrotas ali, mas a gente ta ai. O Brasil é um país lindo maravilhoso, odoro o Brasil, mas que tem suas deficiências, a gente com o hip hop com o rap a gente tenta auxiliar as pessoas para se reconhecerem nesse mundo muito louco que a gente vive, em especial aqui no Brasil, um país que tem suas diversas culturas. Eu to tendo a possibilidade de viajar por diversos estados, conhecendo muita gente importante, muita gente que eu conversei quando eu tava lá dentro, que eu conhecia por telefone mas que hoje eu to podendo abraçar, dizer a satisfação que tenho de telas como minhas amigos/amigos, e por onde eu ando o que eu percebo é o amor, o carinho que as pessoas tem por me, por minha música, e conseqüentemente a força de vontade de viver. O hip hop possibilita isso, quando a gente conversa com as pessoas do meio do hip hop a gente percebe muito isso, a gana, a vontade de mudança, enfim, o Brasil é isso ai pra me.
RN: Quando foi que você entrou em regime semi-aberto, e quem possibilitou você viajar, fazer shows e participar de eventos pelo Brasil?
Dexter: Eu ganhei o semi-aberto no dia 30 de dezembro de 2008, quando eu me encontrava exilado em Campinas, na região de Hortolândia, neste local existe uma Juíza que não era muito de apoiar, apoiar meu trabalho, e logo em seguida eu fui transferido para Guarulhos, aonde chegando lá eu encontrei um Juiz que é um ser humano incrível, que alem de gostar do hip hop é fã das minhas músicas em especial, assim como as musicas do Racionais, do Bill, do Gol, ele acha que todos nós temos um poder muito grande de comunicação, de informar as pessoas do que acontece ao nosso redor, no nosso país, é um cara que abriu as portas pra me, me convidando para executar um projeto dentro do Parada Neto que é uma cadeia de regime semi-aberto, e eu aceitei de bom grado, ele pediu para que eu elaborasse exatamente aquilo que eu gostaria de fazer dentro do projeto, e em parceria com o Instituto Crescer para a Cidadania formatamos um projeto e estamos lá desenvolvendo esse projeto até hoje, é um projeto piloto de seis messes que tem todas as chances de continuar como um projeto efetivos dentro das cadeias de Guarulhos, foi justamente esse Juiz, que me possibilitou desenvolver esse projeto, que também mediante ao meu trabalho entendeu que eu tinha todas as possibilidades de viajar por ai pra fazer show palestras enfim, ele só pediu que fosse elaborado um pedido mediante a LEPE que é a Lei de Execuções Penais, que me garante de fato desenvolver o meu trabalho, e essas saídas temporárias fora de época, mas sempre para trabalhar. O Dr Jaime é um ser humano na condição de Juiz que incentiva muito a questão do trabalho da ressocialização, da reinserção de qualquer individuo da comarca dele na sociedade, e comigo não seria diferente ,mesmo porque eu conheço meus direitos.
Em parceria com Dr. Claudio Portela que é um advogado de Brasília, é meu advogado, um cara muito importante na minha historia um ser humano impar, nos dois em parceria conseguimos elaborar um pedido, muito bem feito, o qual teve êxito dentro da VEC (Vara de Execuções criminais), a principio foi negado pelo Ministério Publico, mas o Dr. Jaime na condição de Juiz ele indeferiu o pedido e agiu de acordo com a lei, e eu conseguir ir até Brasília fazer um show, e a parti daí graças a deus as portas se abriram conseqüentemente, e assim foi até o dia da minha liberdade, dia 20 de abril de 2001.
RN: O que é o Hip Hop pra você?
Dexter: O hip hop é vida, é mudança, é uma proposta de futuro melhor, pra me pra você, para todos aqueles que são adeptos do hip hop, e até pra uma sociedade que muitas vezes nem valoriza o hip hop e tal, mas se a gente consegui mudanças, essas mudanças refletem neles também, se um irmãozinho através do hip hop abandonar as armas , isso reflete nessa sociedade também, que com certeza vai ser um cara a mais para roubar, para matar, para traficar. O hip hop é uma religião, é um movimento, uma cultura, uma base enraizada no mundo todo, em especial nas periferias nas favelas nos guetos, mas que hoje também esta nos asfaltos, um movimento que vem crescendo a cada dia, a cada estante, é uma cultura que consegui reunir milhões de jovens que ao invés de estarem roubando, traficando, cometendo delitos, estão ali cantando, estudando, planejando seu futuro de uma forma brilhante, expressando seus pensamentos através do grafite, da dança, da musica, enfim, é uma cultura que consegui, que conseguiu tirar as pessoas da marginalidade, da criminalidade, é uma cultura que faz com que as pessoas comecem a pensar, a raciocinar, que sintam vontade de voltar a estudar, a respeitar mas seus pais, suas mães, é uma cultura sem igual, que consegui reunir milhares de pessoas para falar de consciência política, racial, social, para falar de diversos assuntos muitos importantes para nossa sociedade. O rap é um amigo que eu tenho, o hip hop é um amigo que eu tenho, o qual eu fico muito chateado quando eu vejo sendo desrespeitado, fico muito triste quando vejo a pouca importância que algumas pessoas dar para o hip hop, mas é uma cultura que mim deixa muita feliz por saber que ao redor do mundo salvar milhões de jovens, milhões de pessoas, tem a característica de mudar o caminho delas, o hip hop é transformação. Hoje no VivaDança eu pude ver jovens dançando, disputando na batalha de break, eu até falei dos seus pais, que naquele momento alguns nem sabiam onde seus filhos estavam, mas que eles pudessem ficar tranqüilos que eles estavam ali trabalhando em prol da cultura, eles estavam vivendo, ali no Teatro Vila Velha, em Salvador, fazendo arte, no melhor dos sentidos dessa palavra, fazendo arte, e mostrando para a sociedade que tudo é possível para aquele que tem uma oportunidade.
RN: Como foi pra você receber a noticia que estar em liberdade plena justamente no dia que você vem pela primeira vês a cidade de Salvador, onde existe a segunda maior população negra fora de África?
Dexter: Isso é importante pra caramba, acho que deus mim reservou um presente maravilhoso, poder estar aqui com revolucionários verdadeiros, que é Hamilton Borges, a esposa dele Andréia, com você Dj Branco, o Ricardo. Maravilhoso poder estar aqui, conheci alguns amigos, reencontrei outros, como o caso do Bansk da Back Spin, que tava aqui como jurado da batalha de break, reencontrar o Banks foi maravilhoso, ele passou por uma faze muito difícil, e hoje ver o BankS dançando é muito bom, por isso que eu digo que o hip hop salva, o hip hop é vida. Poder estar aqui em Salvador tem haver com a minha ancestralidade, com o meu povo, pó deus me deu um presente cara, fico até sem palavras para poder definir o que estou sentindo.
Desde quando eu cheguei que eu to feliz, comemorando minha liberdade e trabalhando também, em breve estarei de volta para o aniversario do Hamilton Borges, um ser humano excepcional, um cara que vem lutando em prol da melhora dentro dos presídios, em prol do povo preto, que ao longo dos anos vem derramando suou nessa luta ai, ta aqui com o Dj Branco é muito importante , um cara muito importante para o estado da Bahia, para o hip hop, um cara que não chegou no começo, quando tudo começou acontecer dentro do hip hop aqui na Bahia, chegou um tempinho depois, mas que graças a deus faz muito mais do que pessoas que chegaram no começo, que talvez tenham até uma soberba de dizer que são fundadores disso ou daquilo, mas que no fundo não fazem um terço do que você Branco faz, tenho visto a sua batalha durantes esses quatro dias que eu to aqui, já foi o suficiente para perceber que você é um cara muito importante para o hip hop baiano, uma figura muito carismática, de responsabilidade, e principalmente de amor pelo aquilo que faz, então cara eu só posso me sentir lisonjeado ao extremo de poder ter ganhado a liberdade justamente no dia que eu estava vindo para cá, e poder ta aqui, eu vi para participar do Viva Dança, da Mostra Hip-Hop em Movimento, participei da mesa redonda Hip Hop e Direitos Humanos – Mudando as Regras do Jogo, um encontro muito importante com o Secretario de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do estado da Bahia, onde a gente pode cobrar algumas coisas, e receber umas cobranças também, tais como, gostaria muito que vocês fossem ao meu gabinete, então isso também é uma certa cobrança, por quer se não ta acontecendo e Secretário pediu para que isso fosse feito, é uma cobrança, então vocês do hip hop da Bahia tem que se juntar ir lá fazer as suas reivindicações, enfim, é mágico poder ta aqui nas terras baianas comemorando minha liberdade, eu gostaria de agradecer a todos pela recepção, pela atenção, ao Vidadança, a Cristina Castro, Wiil Brandão, a toda produção, aos patrocinadores, muito obrigado a todos.
RN: Dexter conta como foi a experiência de visitar uma penitenciaria de Salvador, depois de ter recebido a noticia de que estar em liberdade plena.
Dexter: No domingo de páscoa eu fiz uma visita no presídio de Salvador junto com Hamilton Borges e Drª Andreia, eu gostaria de ter visitado muito mais, infelizmente por conta do horário só conseguimos visitar três pavilhões, mas foi gratificante ao extremo saber que a minha música chegou pra eles aqui, alem de uma conversa nós também fizemos um mini show, cantei algumas músicas, todo mundo cantou todas as musicas, se identificam com as musicas, depois das musicas os abraços, os apertos de mão, as idéias dadas, pó cara, eu só tenho a agradecer, dizer para esses parceiros, que a liberdade deles também vai cantar logo logo, eles tem que ter fé em deus também, tem que batalhar por isso também, nada vem de graça, mas foi muito importante pra mim poder ta com eles, poder neste dia de páscoa, neste domingo de páscoa, estar com eles, a gente ficou sabendo que a visita deles que se dar na sexta, sábado e domingo, por conta de segurança foi transferida, não deixaram eles ter visita neste fim de semana, e eu ter aparecido lá e poder ter dividido com eles varias experiências, ter cantado, foi maravilhoso, eu fiz do meu dia um dia diferente, e o mais importante eu fiz do dia deles um dia diferente, eu Hamilton Borges e Andréia a esposa do Hamilton. Pó foi maravilhoso cara poder ta com eles lá, na verdade eu nem me sentir dentro da prisão, é claro que quando você chega em cada pavilhão cada modulo, sempre tem aquela apreensão, uma apreensão que é até natural de pensar e procurar entender o que você vai encontrar lá, mas ai você chega e encontra um lugar onde as pessoas estão propagando o amor , onde as pessoas estão falando de sobrevivência, estão falando de saúde, de música, pó muito louco meu, poder ter estado com eles lá, foi uma experiência impar em minha vida, queria deixar um salve para todos eles, e dizer para eles que a liberdade jamais será dada voluntariamente pelo opressor, e que ela tem que ser conquistada pelo oprimido.
RN: Dexter hoje se encontra em liberdade plena. O que você vai fazer de sua vida daqui pra frente?
Dexter: Agora eu quero trabalhar, agora estou com uma possibilidade real de trabalho, já venho trabalhando desde que o Dr. Jaime começou a assinar os documentos para que eu pudesse sair para fazer show, então já venho trabalhando com bastante afinco meu, quero continuar trabalhando, quero curti minha família, minha mãe, sobrinhos, irmãos, cunhados, minha esposa, minha sogra que é uma pessoa maravilhosa, tios, meus amigos que é a minha família da rua, agora as coisas vão começar a se resolver com mais facilidade, agora vou ter um tempo a mais para poder resolvê-las, então a perspectiva é muito grande, e a vontade também, vamos juntar tudo e vamos trabalhar, é isso que eu quero agora, eu quero poder pisar na terra descalço morou? (risos). É isso que eu quero, felicidade alegria, paz, saúde e muito trabalho, é isso que eu quero daqui pra frente.
RN: Qual a visão que você tem sobre o hip hop baiano, o que você pode perceber nos dias que você ficou aqui em Salvador?
Dexter: Quero parabenizar o hip hop baiano pelos seus 15 anos, e dizer que estou levando a melhor impressão possível, que é o amor que as pessoas daqui têm pelo hip hop, todas elas sem exceção, que se envolve, que trabalham em prol do hip hop, que fazem isso com muito amor e carinho, esse amor já se faz perdido em algumas cidades, infelizmente em alguns estados, mas aqui na Bahia em Salvador está muito vivo, muito latente, esses quatros dias que eu to aqui, eu me sentir realmente nos meados de 90 em São Paulo, quando fazíamos passeatas, quando íamos pra briga mesmo, quando fazíamos músicas falando dos problemas sócias, raciais, quando fazíamos musicas revolucionarias, não que isso tenha acabado lá, não, não é isso, mas muita coisa mudou, muita coisa mudou, mas eu to mim sentindo nos meados dos anos 90 em São Paulo, muito bom, muito gratificante, to feliz ao extremo, o hip hop é muito latente aqui, perceber esse amor que as pessoas tem por essa cultura foi maravilhoso, eu que fico sem palavras pra todos vocês aqui.
RN: Quando sai o próximo trabalho do rapper Dexter, tem previsão de videoclipe, cd novo?
Dexter: Comecei a trabalhar com mais afinco nesses projetos agora, sim claro, eu que já recebi algumas propostas para gravação de videoclipe, ta vindo ai o DVD da festa Dexter e Convidados que aconteceu na Quadra da Peruche, na cidade de Campinas, e mas pro final do ano vem o Dexter e Convidados 3ª edição também, em DVD, mas é obvio que ta na hora de entrar em Studio, lançar o disco novo, músicas novas, já tenho umas 7 preparadas, mas a gente vai preparar umas 12 pro disco novo, 12 é um numero que gosto muito. São muitos os trabalhos a serem feitos, como eu não cantei no Brasil todo, o repertorio que eu tenho é suficiente para que eu continue fazendo show até mais um ano ai, mas o hip hop ta carente dessas coisas, de DVD de Cd novo, então eu entro em estúdio agora semana que vem para retomar essa questão musical, da minha carreira, e ai espero fazer um disco a contento.
RN: Manda um salve geral para os internautas e os integrantes da cultura Hip Hop.
Dexter: Quero deixa um salve, um abraço para os internautas, e todos que fazem parte da cultura hip hop, muito obrigado pelo carinho, em especial para a Bahia, deixar um abraço para todas essas pessoas e dizer o que o hip hop não para, nós estamos ai, quero agradecer todo carinho todo respeito, todo amor, obrigado mermo, tamo juntão, até a próxima, que deus abençoe a cada um de vocês, todos sem exceção, tamo junto, paz a todos.
Fonte: Rap Nacional






